Do Residual ao Vital: Uma Ciência que Emerge dos Esgotos

Figura 1. As águas residuais revelam tendências de saúde comunitária, desde doenças infecciosas até resistência a antibióticos.
Há milhares de anos
Há milhares de anos, os seres humanos desenvolveram sistemas de canalização de águas residuais com o objetivo de afastá-las das cidades, pois já sabíamos do seu potencial para propagar doenças infecciosas. A água residual carrega as excretas de toda uma população e, com elas, as bactérias que vivem no corpo humano: a microbiota.
A microbiota é como uma comunidade de minúsculos seres vivos (principalmente bactérias, mas também vírus, fungos e outros micróbios) que vivem dentro e sobre nossos corpos, especialmente em nosso intestino.
Exemplo: imagine seu intestino como um grande jardim. A microbiota são todas as plantas e pequenas criaturas que vivem nesse jardim. Algumas ajudam o jardim a crescer saudável (como ajudar você a digerir alimentos ou proteger você de germes nocivos), enquanto outras podem causar problemas se crescerem demais.
Por isso, a água residual não representa apenas um risco de contágio, mas também uma valiosa fonte de informação. É como se fossem amostras biológicas de toda uma comunidade coletadas de uma só vez. Essa perspetiva deu origem a um campo emergente conhecido como epidemiologia baseada em águas residuais, que permite monitorar e detectar surtos de doenças infecciosas de forma eficaz e econômica. Durante a pandemia de COVID-19, essa abordagem foi utilizada para monitorar cidades inteiras sem a necessidade de realizar testes clínicos individuais, o que facilitou decisões de saúde pública como as restrições de mobilidade.
Além das emergências
Além de situações de emergência como a vivida entre 2020 e 2022, o monitoramento da água residual continua sendo útil para acompanhar variantes de patógenos que ainda circulam, apesar do controle por vacinas, ou para detectar a presença de genes associados à resistência a antibióticos, uma ameaça crescente à saúde global. Uma das vantagens desse método é a capacidade de modular a escala de amostragem, que pode variar desde o nível intraurbano ou até de edifícios específicos até cidades inteiras, permitindo focar nos pontos mais estratégicos.
Técnicas de vigilância
As técnicas utilizadas nesse controle microbiológico são diversas, desde o cultivo clássico de microrganismos até métodos moleculares mais avançados, como a amplificação gênica ou o sequenciamento em larga escala. Essas ferramentas nos permitem analisar em detalhe a vida microscópica que encontrou seu nicho nos sistemas de esgoto e transformar o que antes era apenas resíduo em uma poderosa ferramenta de vigilância epidemiológica.
O que eu faço?
Na minha tese de doutorado, pesquiso o conjunto de genes de resistência a antibióticos presente na água residual de diferentes comunidades.
Agradecimentos
Projeto PID2022-139446OB-C21 (EXPOWASTE)
Financiado por MCIN/AEI /10.13039/501100011033 / e FEDER, UE